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Sobre o Pão de Ló!

Encontramos pão-de-ló por todo o país, sendo obrigatório nas mesas da Páscoa a norte de Coimbra. O mais famoso é sem dúvida o de Margaride, e por isso mesmo o mais imitado. Seguem-se os de Vizela e de Ovar. A sul de Coimbra, o prémio vai sem dúvida para o de Alfeizerão.

Pão-de-ló, o que é afinal?

Antes de mais, é o nome que se dá a diversos bolos da doçaria tradicional Portuguesa, que podem ser diferentes na forma, na textura e no sabor, mas têm em comum ser feitos apenas com ovos, açúcar e farinha. As diferenças são determinadas pelas proporções dos ingredientes, a maneira de fazer e também a intensidade das cozeduras. Estes factos explicam que do conjunto dos mesmos ingredientes resultem bolos tão diferentes que, em alguns casos, até dão a ideia de não ter nada a ver uns com os outros.

O que mais tem intrigado no nome deste bolo é a palavra "ló". Há inúmeras preparações que podem ser designadas por pão. Por exemplo, dá-se o nome de pão ao bolo que resulta da cozedura de gemas batidas e que depois é cortado em fatias, por sua vez escalfadas em calda de açúcar. São as conhecidas fatias da China ou de Tomar. Utiliza-se a expressão pão-de-ló para identificar vários bolos fofos, amarelos, que podem ser secos ou húmidos, e há quem diga que "ló" é a superfície semelhante a doce de ovos obrigatoriamente presente no pão-de-ló de Ovar, Alfeizerão, Rio Maior e, de um modo geral, de todos os que são provenientes da região do Oeste e do Centro Litoral do país. Outros, porém, contrapõem que "ló" aparece ligado a um bolo a que chamavam pão-leve. O marido de uma das doceiras que estão na origem do fabrico do doce que se faz em Margaride tinha a alcunha de Ló, e da alcunha ao nome do doce foi só um passo. Ora, o pão-de-ló de Margaride não apresenta (e não deve apresentar) a tal camada semelhante a doce de ovos...

Também a gastronomia japonesa tem um bolo que se chama castela, cuja receita os missionários Portugueses ali divulgaram no século XVI. E afinal castela é apenas um pão-de-ló, no qual a marca Portuguesa continua a ser clara, até mesmo no nome. 
                                                                                                
                                                          em Festas e comeres do Povo Português (II)



Das mais famosas receitas de pão-de ló destacam-se as seguintes:

O pão-de-ló de Margaride, fabricado à mais de 2 séculos, cuja forma consta de três tijelas de barro, duas do mesmo tamanho e uma mais pequena, sendo esta colocada invertida no meio da que forma a base fazendo de chaminé, como se vê na figura.
Este pão-de-ló não deve ser cortado com faca mas sim partido à mão.




Como variante deste pão-de-ló de Margaride, temos a broa de pão-de-ló, feita na Cedofeita, Santa Cruz do Douro, e em Baião. A diferença fundamental reside na adição de uma casca de limão, que é retirada quando se junta a farinha. Tal como o de Margaride, não se corta com faca mas parte-se à mão.

Da região da Beira Baixa vem uma outra versão, o pão leve, esta utilizando raspa de limão.

De Vizela surge um pão-de-ló mais húmido, com uma cobertura de açúcar e de forma rectangular.

Um pão-de-ló "dourado, fofo e húmido" é um ex-libris de Ovar. Não se sabe bem quando começou a ser feito mas certamente foi à mais de 200 anos.

De um dos mais conhecidos em todo o país, o pão-de-ló de Alfeizerão, consta que a receita e a técnica foram ensinadas por freiras de Cós a uma família de Alfeizerão, em sinal de gratidão pelo acolhimento dispensado quando da extinção do Mosteiro. Começou então a ser produzido em ocasiões festivas e em meados da década de 20 do século passado iniciou-se o seu fabrico industrial e comercialização.



No Concelho de Amarante, é produzido um pão-de-ló, o pão-de-ló de Freitas, diferente de todos os outros: a farinha de trigo é substituida por farinha de arroz e fécula de batata, o que resulta numa textura diferente mas muito agradável.

E é do Alentejo que vem mais uma excepção à regra dos 3 ingredientes do pão-de-ló, com a introdução da amêndoa e uma cobertura feita com açúcar em pó, leite e uns pingos de limão, cuja receita vamos aqui apresentar.





Pão-de-ló de Amêndoas (Évora, Alentejo)





Ingredientes:

250 gr de amêndoa ralada
65 gr de farinha
7 ovos
250 gr de açúcar

Preparação:

Aquecer o forno a 200 ºC.
Misturar a amêndoa ralada com a farinha.
Bater as gemas com o açúcar até se obter um preparado muito fofo e com o dobro do volume.
Bater as claras em castelo com uma pitada de sal e adicionar ao preparado de gemas e açúcar, alternando com a farinha.
Deitar numa forma redonda lisa, sem chaminé, untada com manteiga e polvilhada com farinha.
Introduzir o bolo no forno e baixar imediatamente para 125 ºC. Deixar cozer até que, ao introduzir um palito, este saia seco (cerca 45 a 50 minutos).
Servir simples ou com uma cobertura preparada com açúcar em pó, leite e uns pingos de limão.


Adaptado de: 
Festas e comeres do Povo Português (II),Mª de Lurdes Modesto, Afonso Praça e Nuno Calvet,Verbo,1999

"No Entrudo come-se tudo"...e talvez uma sericaia...

Filhós
"Talvez para justificar atitudes e comportamentos que as normas sociais nunca aceitaram e frequentemente condenaram, alguém ditou, no tom de sabedoria que caracteriza o adágio popular: "No Entrudo vale tudo". Não será bem assim, por muitos que sejam os desmandos cometidos neste período que antecede a Quaresma. Mas há outro dito, idêntico, que se aceita pacificamente e corresponde à realidade dos dias de hoje, tempo cada vez mais de Carnaval-cartaz-de-turismo, onde já mal se divisa o antigo Entrudo português-caceteiro e ofensivo, avinhado e licencioso. Esse dito, está-se a ver, relaciona-se com a comida: "No Entrudo come-se tudo". Mas mesmo aqui é preciso cuidado com as afirmações definitivas: no Entrudo não tem lugar o peixe, que segundo a já referida sabedoria popular não puxa carroças, e nesta quadra festiva há sempre carroças a puxar, algumas bem pesadas por sinal."
                                                        em "Festas e Comeres do Povo Português" de Mª de Lurdes Modesto

Comer bem e beber melhor continua a ser uma das regras de ouro do Carnaval. Nas ementas predomina a carne de porco (fresca, salgada, fumada ou em enchidos), destacando-se, sobretudo no Norte e Centro do país, o chispe e a orelheira.
Em Trás-os-Montes é frequente comer-se feijoada, cozinhada com feijão encarnado ou feijão branco. Os pézinhos de coentrada, uma das mais emblemáticas especialidades da cozinha Alentejana, constituem a refeição do Domingo Gordo. E embora haja variantes, aquilo a que chamamos cozido à Portuguesa é na verdade o cozido à Transmontana.


Pratos servidos no Entrudo

Também existem sobremesas específicas do Carnaval, com destaque para as filhoses (em algumas terras chama-se Sábado Filhoeiro ao Sábado Gordo). Além das filhoses são ainda da tradição azevias, boleimas, coscorões e nogados no Alentejo, os bolinhós no Algarve e as malassadas nos Açores.


Adaptado de:  Festas e comeres do Povo Português (I),Mª de Lurdes Modesto, Afonso Praça e Nuno Calvet,Verbo,1999


Sericá ou sericaia. Diz-se que a receita veio do Oriente...Seja qual for a sua origem, em Elvas tem tido bom tratamento - em Elvas e noutras regiões Alentejanas.

Ingredientes:

6 ovos
70 gr de farinha
5 dl de leite
300 gr de açúcar
manteiga
canela em pó

Preparação:

Separar as gemas das claras. Dissolver a farinha e as gemas no leite.
Levar o açúcar ao lume com um pouco de água e deixar ferver até começar a alourar.
Adicionar a mistura de leite, lentamente, e deixar cozer, mexendo, até ficar bastante espesso. Retirar do calor e deixar arrefecer.
Bater as claras em castelo e juntar ao preparado anterior, em movimento suaves de baixo para cima.
Deitar o sericá num prato de barro ou de estanho bem untado de manteiga, em colheradas desencontradas.
Polvilhar com canela em pó e levar ao forno bem quente até começar a abrir fendas.